Produto para ninguém
Algumas vezes, os acasos do destino nos provocam reflexões tão importantes que seria muita leviandade não aplicarmos o ensinamento obtido em nossa vida. E seria egoísmo não partilhar, ainda que por meio de uma visão subjetivista. Explico: o conto Teoria do Medalhão (Machado de Assis) me surgiu essa semana ocasionalmente e ficou martelando na cabeça. É uma história onde o pai exige do seu filho que dê continuidade ao ofício de Medalhão, uma pessoa que vive de aparências, em uma função que se resume a se mostrar de maneira mácula perante a sociedade. Em suma, um sujeito neutro, um carta-branca. Nesse ofício, não se deve discordar do senso comum, não se pode tomar atitudes que gerem divergências ou propor reflexões acerca do mundo em seu meio de convívio. O Medalhão seria um fantasma se não existisse somente para ser visto e admirado enquanto ser social. Seria uma imagem do homem ideal aos olhos dos grandes poderes. Leia-se marionete. Um figurão limpo, obediente, passivo, porém vazio. Tendemos a confundir bons relacionamentos interpessoais com o trabalho do Medalhão. Porque, na minha opinião, são as emoções que caracterizam o ser humano. De maneira prática, devemos cuidar sim para que consigamos harmonia no convívio com outras personalidades. Mas acredito que isso pode ser feito sempre de maneira sincera, moderada, empática, objetiva e sem rusgas pessoais. Afinal, o rancor nunca fez bem a ninguém. Devemos perdoar e ser perdoados. Ora, todos estamos sujeitos a falhas. E normalmente, no capitalismo intolerante, os erros é que são lembrados. Uma pena. Que prevaleça mesmo o bom senso. Todos estamos em busca da felicidade, do nosso sustento, do nosso amor, da nossa família. Não sei se é possível em todas as situações, mas é preciso que sejamos razoáveis e comedidos em algumas delas. Mas sejamos nós. E não aquilo que desejam. Provoquemos discussões que tragam soluções benéficas a todos. Incitemos reflexões. O caos quebra a inércia e inevitavelmente resulta em equilíbrio. Necessário sacudir o padrão. Porque se calar e absorver as injustiças que invariavelmente nos atingem é fomentar iras que crescem dentro de nós, frente a problemas que poderiam ser resolvido com diálogos e boas atitudes. No mínimo, com coragem. Nos preocupamos muito com a forma, principalmente no Brasil, onde o consumidor compra pelo design. Mas de que serve então nosso conteúdo, senão para preencher o mundo? Você escolhe o que você vai ser: presente ou embalagem?
