Fiquei pensando se devia me atrever a escrever algo sobre Jobs. Muita gente interessante já falou sobre o assunto nesse dia triste em que perdemos uma das mentes mais brilhantes com as quais tivemos a sorte de compartilhar a existência, ainda que de muito longe.
Pode ser que o texto nade em clichês e pareça demagogo, pois parece fazer pouco sentido lamentar a morte de alguém que sequer se conheceu pessoalmente. O problema é que, para qualquer pessoa que tenha alguma afinidade com tecnologias digitais, esse é o único assunto sobre o qual parece fazer sentido falar hoje.
Daniel Kahnneman, ganhador do prêmio Nobel de Economia 2002, após 30 anos de estudo, desenvolveu sua tese “Teoria da Perspectiva” sobre a irracionalidade nas decisões de consumo e investimento. Esta pesquisa revelou que as falhas e distorções em nossos processos decisórios são regra, e não exceção, e que a maioria das pessoas ficam satisfeitas com avaliações superficiais. Por isso, quando um jogador está ganhando, ele fica temeroso, no entanto, quando um jogador está perdendo, ele arrisca tudo. Por isso também, temos a tendência de exagerar em nossas autoavaliações, considerando-nos mais capazes, talentosos, inteligentes, honestos, etc. do que realmente somos.
Kahnneman, afirma que temos 02 sistemas de pensamento:
1 – Quando estamos agindo no Sistema 01, tomamos decisões velozes, sem esforço, habituais, reforçadas pelas emoções, por isso tais decisões podem ser precipitadas.
2 – Quando estamos agindo no Sistema 02, nossos pensamentos e modo de agir é consciente, analítico, lógico, por isso é mais lento, dá mais trabalho, mas é mais seguro, principalmente em situações de risco.
Muitas pessoas talentosas não alcançam o sucesso que almejam, porque na maioria das vezes, estão condicionadas ao Sistema 01, agindo de forma automática, “nadando a favor da correnteza”, se comportando como a maioria, oferecendo o que a maioria oferece, de forma habitual, sem esforço.
É preciso somar ao talento, à competência uma dose de eficiência. Para que essa adição ocorra, é necessário persistência, determinação, esforço e estratégia (Sistema 02) além da multiplicação de forças, pois ninguém escala a montanha do sucesso completamente sozinho.
O prof. Luiz Marins diz que “quando uma pessoa busca desafios no próprio trabalho, encontra a motivação. O ser humano precisa sentir-se em constante desenvolvimento e não pode ficar esperando que alguém lhe ofereça essa oportunidade. Ele mesmo deve buscar esse desenvolvimento por meio da atenção aos detalhes em tudo o que fizer.
A ilusão de viver em busca de um trabalho motivador é, muitas vezes, fruto da falta de dedicação ao trabalho atual. Ninguém ama aquilo que desconhece e, quanto mais conhecermos sobre nosso trabalho, maior será a nossa chance de gostar do que fazemos”.
Penso que a ansiedade em trocar de emprego está diretamente relacionada à nossa dificuldade de resolver as questões e por parecer mais prático desistir delas, e não com a busca de novos desafios. Isso ocorre em outros aspectos de nossa vida, quando resolvemos abrir mão de um amigo, por achá-lo difícil de lidar, deixando de perceber suas qualidades e suas contribuições à nossa vida, quando decidimos “armazenar” nossos velhos em lares para idosos, por não encontrar tempo em nossas agendas para cuidar deles e nos convencemos que para ele isso é o melhor, quando decidimos descartar aquele cônjuge que já está “rabujento”, e investir em um novo relacionamento, com a certeza de que a culpa é toda dele, quando somos ingratos o bastante para dizermos que “tudo o que temos conseguimos sozinhos, que nunca ninguém nos deu nada”.
Estamos sempre prontos para criar motivos, a fim de esconder as verdadeiras razões, e já que isso nos “caiu tão bem” aceitamos como uma célebre descoberta.
No curso dos tempos modernos, de vez em quando a história revela-se inflexível e definidora de caminhos. Tudo o que parecia estabelecido, quieto em sua calma, de repente, pode revelar-se instável, abalado e fora do lugar. Em alguns casos, o acontecimento assinala nitidamente o término de um processo, e o início do desconhecido, podendo ser não só surpreendente, mas ser também questionador. É provável que tenha sido assim: com Colombo dando a notícia de que chegara ao outro lado do mundo. Com a queda da Bastilha, os bolchevistas, os aviões nas Torres Irmãs. Atores diversos, cenas profundamente carregadas de significados e de emoções, que impuseram novos caminhos, novas formas de se pensar e de ocupar o mundo.
Num dos tratados de Freud, há uma alusão às feridas narcíseas da humanidade. A primeira delas ocorreu quando Copérnico provou que a Terra não era o centro do universo, mas a periferia apenas entre muitos corpos celestes que se movem no espaço cósmico. Depois, Darwin afirmou que o homem não foi criado à semelhança de Deus e era, simplesmente, uma das conseqüências do processo evolutivo das espécies. Por fim, o próprio Freud descobriu que nem somos senhores de nós mesmos, pois toda nossa racionalidade é identificada com o consciente, mas existe também o inconsciente, que não controlamos; se formos felizes ou infelizes, a responsabilidade é genuína e objetivamente nossa.
Tem me inquietado o significado do tempo em que vivemos. Tenho pensado muito na série de feridas que se abrem diariamente no indivíduo e no coletivo, dada a conectividade e efemeridade de nosso tempo, e, sem dúvida, isso motivou a catarse deste texto. Construímos para nós, pessoas e sociedades, uma série de novos valores toda vez que o mundo se agiganta um pouco mais a partir da expansão do conhecimento e da técnica humana.
Estamos cada vez mais plugados num esteio global e paradoxalmente mais sozinhos e acuados em nossas plataformas. Um sentimento hedônico desenfreado, prazer pelo prazer, sem escrutínio e sem lastro. Estamos cada vez mais desenvolvidos, antenados, conscientes sobre o significado de mundo e paradoxalmente mais abusados, mais indóceis e descompromissados com o nosso hábitat. Há uma Terra inteira banindo a vida em alto e bom som, estamos imunes em nossas cápsulas.
Estamos cada vez mais cientes da pequenez e fragilidade da vida, e paradoxalmente mais expostos, mais aventureiros, mais despreocupados com nosso conteúdo e com a casca que nos envolve. Temos toda a certeza sobre a importância da história, do tempo vivido, do acúmulo do conhecimento, da experiência sentida e continuamos celebrando um mundo somente de jovens, um mundo que se curva diante do novo em detrimento do que está posto.
Há de se compreender cada vez mais sobre a história e sobre o que consideramos em nossos dias como antigo para que possamos construir caminhos seguros. Olhem os rostos das pessoas de sua família, tentem ler neles a história dessas vidas, haverá uma compreensão inigualável de aprendizado. Siga assim, atento ao todo e a todos que já experimentaram mais da vida que você.